A ameaça é o voto impresso

Por alguma razão difícil de entender, a Folha publicou a opinião do Gabriel Kanner, presidente do Brasil 200, defendendo o voto impresso. Formado em Relações Internacionais pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), é possível perceber certa eloquência afeita aos marqueteiros na sua retórica — há uma extensa defesa do processo democrático na sua coluna, que desvia a atenção do ponto principal. Todos defendemos a democracia, mas nem todos, a ideia do voto impresso. Passado o longo preâmbulo, a fragilidade dos argumentos remontam à mesma fragilidade intelectual do bolsonarismo a esse respeito.


A fixação dos defensores do voto impresso é na ideia de que, sendo impresso, o eleitor teria conhecimento e agência sobre o processo eleitoral. Isso é difícil de conceber: os votos impressos seriam ensacados, contados por inúmeras pessoas, transportados, realocados, armazenados, reabertos em caso de necessidade de recontagem. Trazer o voto impresso é uma ideia que não fortalece o processo eleitoral. Pelo contrário: fragiliza-o. Basta observar a facilidade com que se executa um roubo de carga, no Brasil. O próprio Min. Barroso elencou este como um dos problemas na ideia de passarmos imprimir votos.

Reivindicar o acompanhamento "transparente" do processo eleitoral como direito civil é como argumentar sobre o direito à transparência do "direito inalienável à propriedade privada" — e, assim, apenas a cédula impressa, depositada numa caixa com seu nome no banco, seria válida.


A civilização é construída sobre incontáveis pequenos gestos de confiança. Confiamos, por efeito de pesos e contrapesos, que as instituições guardam apropriadamente suas obrigações. Considerando a segurança atestada inúmeras vezes das urnas, mais seguras que as impressas, colocar o voto eletrônico em questão é tão absurdo quanto colocar os bancos, o Pix, o sigilo bancário, as ações da Bolsa de Valores.


Pensar se faria sentido atender às demandas do Presidente Bolsonaro nesta questão demanda lembrar de outras ideias do presidente: a de que o Nióbio salvaria a economia do país, a de que a cloroquina funciona, a de que máscaras são desnecessárias, a de que a Covid era só uma gripezinha.


Agora, além de faltar razoabilidade, a ideia do voto impresso é um risco à democracia: basta que um miliciano sequestre alguns desses impressos para que o processo eleitoral seja colocado em xeque. Bolsonaro parece estar aperfeiçoando, com um, ano de antecedência, o show de horrores que Trump criou na transição de mandatos.


#votoimpresso #eleiçoes2022

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