A desconfiança nas big techs: o caminho dos populistas?

Minha pesquisa no trabalho tem sido uma análise aprofundada das transformações que o 5G deve fazer em variadas indústrias. Muito sobre cibersegurança, dados descentralizados e vulnerabilidades. Toca o telefone: "Olá, Sr. Sérgio Tavares?". Ligação de Londres, sotaque russo. "Olá, como você conseguiu este número?". Ele responde: "O senhor requeriu há algum tempo informações sobre investimento". Não requeri. "Mas você tem certeza?". "1000%". Em suma: vivemos a incerteza de que, talvez, em algum momento, em algum formulário ou aceite de "termos e condições", eu tenha autorizado alguém a me telefonar. Vivemos também na incerteza de que talvez ele tenha pego os dados de algum banco de dados, sem autorização. Essa insegurança é generalizada: como saber com toda certeza de que alguém não está roubando meus dados, acessando minha webcam ou monitorando meu computador? Vivemos na constante possibilidade de que alguém pode estar nos monitorando. Estamos nos acostumando a essa incerteza: ela é tolerável. Talvez seja isso, afinal, que tenha servido de combustível para o derretimento da confiança das pessoas nos sistemas e instituições. Quando vivemos esse desconforto como novo normal, nosso estado natural é de desconfiança. Começam as paranoias nas bolhas de ressonância, e é o que temos hoje, politicamente. A desconfiança generalizada na ciência e na política, o alarde dos inimigos invisíveis, pode bem ter começado com a comercialização sorrateira dos nossos dados — criando um estado de alerta perpétuo e transformado essa incerteza em sintoma pela voz dos populistas.

Metamorfose bolsonarista

Meu projeto de livro, Bolha, requer mais tempo pesquisando do que escrevendo. Há um ano, me infiltrei no Parler, a rede social de direita, pra pesquisar o espectro que ronda o bolsonarismo. Criei um p

Mídia e tecnologia: Ser visto / ser humano

Estes dois trechos de ‘I’m thinking of ending things’ falam muito comigo. No primeiro, eles discutem um ensaio de David Foster Wallace, dizendo que as pessoas bonitas na televisão acabam por nos deixa

Desvio de atenção: o problema de Carol Conká

Fenômenos culturais devem ser interpretados por seus efeitos — que sempre são calculados; do contrário, não permaneceriam no ar. É o efeito, em especial, da representatividade que opera na televisão: