Desvio de atenção: o problema de Carol Conká

Fenômenos culturais devem ser interpretados por seus efeitos — que sempre são calculados; do contrário, não permaneceriam no ar. É o efeito, em especial, da representatividade que opera na televisão: uma pequena parte representa o todo; uma única narrativa representa a narrativa da vida cotidiana. A repetição é o hábito, a normalização; o costume, enfim. Confesso que só com os trechos que vi, onde uma negra achaca sem qualquer réstia de empatia um rapaz negro, aquilo é chocante; é brutal.

Em dado momento o Reinaldo Azevedo fez uma interpretação do fenômeno cultural muito precisa, que raramente se vê na mídia: a análise da mídia como efeito cultural.

“Quando você tem um negro, protagonizando a narrativa de discriminar por região (“sou de Curitiba, papapa do Nordeste”); quando você tem um negro fazendo tramoia e discriminação; quando você tem um negro dizendo “aquela Marielle defendia bandido”, algo mentiroso e criminoso que sequer devia ter ido ao ar... o brasileiro médio está lá, vendo, e ficando com que impressão? Você tem um monte de bolsominions no sofá dizendo: “tá vendo? é assim esse movimento negro”. Um negro que usa a sua identidade para fazer discriminação. Dá audiência? Dá; inflama as redes sociais... é um desserviço ao Brasil. Dá a impressão de que o difícil é ser branco, ser hétero, ser rico. É um desserviço à luta que se trava HOJE.”

O social porn do Big Brother acabou de passar do limite — não é um programa que deve existir dentro da tensão social em que estamos vivendo.

Metamorfose bolsonarista

Meu projeto de livro, Bolha, requer mais tempo pesquisando do que escrevendo. Há um ano, me infiltrei no Parler, a rede social de direita, pra pesquisar o espectro que ronda o bolsonarismo. Criei um p

Mídia e tecnologia: Ser visto / ser humano

Estes dois trechos de ‘I’m thinking of ending things’ falam muito comigo. No primeiro, eles discutem um ensaio de David Foster Wallace, dizendo que as pessoas bonitas na televisão acabam por nos deixa