BAUMAN / BYUNG-CHUL: LÍQUIDO / VOLÁTIL

Updated: May 2

"A tela do computador é porosa", escreveu Michelle White em seu livro Too Close to See, sobre homens e mulheres se relacionando pela webcam. Vivemos dentro dele, como num quarto multifacetado, contíguo ao quarto físico de onde se opera a máquina.


A relação com o computador é estritamente individual. Nada é mais desconfortável que operar um computador pessoal sob supervisão. Seja com alguém sobreolhando a tela, fisicamente presente, ou nos momentos breves em que partilhamos a tela cheia numa videoconferência. O computador é ao mesmo tempo sala de estar, arquivo, sala de televisão e caixa de guardados, e demanda um ordenamento trabalhoso, tanto quanto as salas e arquivos físicos demandam.


O telefone, por sua vez, vai além do computador. Apesar de cumprirem funções análogas, o telefone se expande em instantaneidade e ubiquidade ao ponto de distinguir-se da categoria de computador pessoal. Em sociedade, o telefone é nosso espaço default de existência. O computador é arquivo, navegação, produtividade. O telefone é, a um só tempo, um espelho portátil, e nossa via de acesso às nossas relações pessoais com o mundo e de manutenção de si — dos anúncios de roupa e maquiagem ao contato com amigos de todas as épocas da vida.


O telefone dá vida à fantasmagoria em que consiste existir no mundo contemporâneo: ele traz à existência a simulação, e a simulação, mais que nunca, é nossa forma mais corriqueira de existência. Se não pelo fato do mundo pós-Covid ter nos obrigado a distanciar-nos, mas pela ideia simples de que no telefone podemos existir a um só tempo em múltiplos lugares, de forma controlada e efêmera. Se o mundo era líquido antes da grande expansão do telefone e da rede social, simultaneamente, o mundo de hoje é ainda mais fugaz. A metáfora líquida de Zygmunt Bauman encontra sua manifestação na mutação constante dos perfis sociais, na brevidade relativa das identidades fluidas, e nas relações fluidas que estas identidades criavam e desagregavam.


Mas compare a fluidez da identidade dos anos 2000 com a chama etérea que se tornaram identidades e relações em 2020: se antes tínhamos tribos, comportamentos e uma elaboração artística do self no processo de aderir a determinada tribo, nos anos 2020 temos reações químicas inflamáveis e instantâneas. A volatilidade não está em nos compormos de forma diferente a cada temporada da vida, como Bauman preconizava. A volatilidade de hoje está no que Byung-Chul Han descreve como um self que necessita produzir-se incessantemente para existir. Enquanto Bauman descrevia um mundo acessível na internet, o mundo de Han é descrito primariamente dentro da simulação do computador. "A selfie produz o self o tempo todo, mas esvaziada de sentido", ele constata.


Essa volatilidade do self também se observa na diferença entre as relações interpessoais de ontem e hoje, que são análogas também à maneira como serviços e produtos nos abordam. Nos anos 2000 ainda vivíamos sob símbolos, construções, estéticas que manifestavam identidades. Essa é uma busca essencial por alteridade, visto que o self se compunha como diferencial: sou X, pertenço a Y. Em 2020 temos uma era de adiposidade, como descreve Han.




Bibliografia básica


Michelle White, Too Close to See

Jean Baudrillard, Simulacra and Simulation

Zygmunt Bauman, Identidade.

Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço.


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