Pessoas na Casa do Lago

  • Houve uma paz soberana, genuinamente sublime, que me invadiu no dia seguinte à partida deles para a casa do lago. Alguma coisa fluiu da janela, naquela noite. Uma espécie de reconhecimento sensorial. Era um estado mental que até então eu parcialmente desconhecia. Muitas vezes pensei ser o mesmo que experienciei quando ainda muito jovem, saindo de Porto Alegre, num ônibus de linha. Estava dentro do ônibus e a sensação não sobreveio, mas fluiu. Etérea, sem insinuar-se antes, nem deixar traço, depois. Ontem, não. O descanso da movimentação das crianças havia se derramado no apartamento como um bálsamo. Dali, para a alma. O tilintar das peças de Duplo, as reclamações do bebê, o entusiasmo volátil de nosso filho de quatro anos. Tudo vivido no contínuo da quarentena, entre trabalho, afazeres domésticos, hora de escovar os dentes, hora de colocar pijama, hora de dormir. Os pequenos tormentos, as pequenas alegrias. A quarentena parecia haver empilhado tudo dentro do apartamento, sem fluxos. Existíamos como réplicas de nós mesmos, co-habitando com elas, dia após dia nos últimos seis meses. Em cento e oitenta dias eram cento e oitenta de cada um de nós habitando entre as paredes. A reforma da cozinha havia nos consumido financeira e espiritualmente. Estava, afinal, condizente com um post do Pinterest. Debatemos a cor da parede por dias. Pedimos dezenas de amostras, optamos por um tom apelidado de latte. A composição era agradável junto do cinza muito claro dos armários. Ela pediu novas amostras de um tom rosáceo que contrastava perfeitamente com o cinza-claro. Evitei levar adiante a ideia, mas, realmente, a amostra afixada na parede demonstrava que o contraste era mesmo elegante. Pensei que ela jamais estaria satisfeita: a espécie de autoquestionamento perpétuo que me afligia sobre a memória de onde estão os lugares. Se pensava racionalmente que o destino estava à esquerda, intuitivamente sabia que estava à direita. A indecisão tomava o contorno de um jogo de xadrez instantâneo contra si mesmo. Às vezes era possível derrotar a dúvida com rapidez. Outras, com análise forense. Lembrando de paisagens, letreiros, pequenos eventos ocorridos nos arredores. Em dúvida, ficamos com a parede latte. Agora, estava tudo à luz branda, e refrigerado pela janela aberta. O primeiro fenômeno, no ônibus em Porto Alegre, fluía de fora para dentro. Este, parecia fluir de dentro para fora, generosamente. Tinha a mesma natureza fugidia, mas era mais palpável. Estar sozinho, esvaziado de nossas cento e oitenta réplicas havia me feito pleno, sem transbordar. Um equilíbrio fino e efêmero se fez. Estava na janela. Logo passou. Limpei o balcão da ilha na cozinha, cuja pedra tinha o apelido de moon white. Tinha satisfação imensa em ver a cozinha limpa a quietude da casa arrumada. Era uma espécie de purgatório. Se havia claustrofobia, a necessidade de quietude se tornava neurótica. O tilintar dos Duplos voltava a incomodar, caíam de armários, entravam em gavetas, entremeavam móveis, como goteiras. Na sala, apenas a luz do abajur. Estava pronto para iniciar o filme, tomar sorvete, e tentar refazer a catarse através da televisão, mas não aconteceu.