Sobre 'Capricórnia'

Updated: May 2

‘Capricornia’ retrata um interior atemporal no Paraná. O fio condutor é um acidente de carro envolvendo uma arquiteta. Ela atropela uma mulher na estrada, e segue num estado paranoico que faz a espiral narrativa do livro. Ela fica convencida de que é outra pessoa, estranha a tudo à sua volta. É uma personagem presa em diversos círculos. Primeiro, essa arquiteta está presa no seu papel social (mulher, mãe, membro da igreja, membro do clube). Depois, está presa no engano que pensa haver: ela seria outra pessoa? Alguém a socorreu na estrada? De quem é o corpo carbonizado no carro?

E, por fim, ela está presa na diegese do livro: decidida a voltar ao lugar da colisão, ela passa por casas de peroba, hospedarias, terra vermelha batida e armazéns de café abandonados. São coisas que realmente populam as beiras de estradas paranaenses. Nessa rota fantasmagórica, ela então é atropelada por seu próprio carro, no mesmo acidente do início do livro. Fecha-se o ciclo, onde ela entra nesse eterno retorno, mas trazendo algo novo consigo.

Existem inúmeras imagens assustadoras, e o clima que tentei construir é de um drama familiar com toques incisivos de horror existencial: os evangélicos falando em línguas, o estranhamento da própria imagem no espelho, os cães ladrando em uníssono, um corpo carbonizado no carro batido. Os elementos naturais do livro talvez sejam poeira e fogo, como nessa passagem:


Me estendeu uma caixa de fósforos. Chispei e lancei; aterrissou como uma parábola lenta, linda, a pluma incandescente. A chama se alastrou como roedores, do porta-malas para os bancos traseiros, aos confortáveis encostos de cabeça, ao painel envernizado e à cera perfumada e, incandescente, tudo se abraseou, chispou em protesto, um grito remoto e volátil se consumiu lá de dentro, como um fantasma sorvido em si mesmo, enquanto as roupas e os polímeros derretiam-se como açúcar.



Alguns dos estudos para a preparação do romance e o livro publicado em 2015.




As casas de madeira, incomodamente inflamáveis, são muito características do interior do Paraná, construídas na metade do século XX. Não são como as casas de tábuas horizontais americanas, mas verticais, justapostas por matajuntas. Para mim, essas casas, assim como os carroceiros, ainda comuns nas cidades médias, são uma espécie de conexão histórica, para bom e mau sentido: bom, porque convivem com os centros e a urbanização em relativa harmonia. E ruim, porque demonstra que o passado continua ali, dizendo que o futuro não foi, afinal, distribuído igualmente. É difícil pensar que um carroceiro não gostaria de fazer seus trabalhos de frete com um automóvel, ou que o morador da casa de madeira não preferiria uma residência com melhor insularidade na época do inverno, ou privacidade entre os cômodos. As paredes são finas, e o frio é intenso. Romantizar a casa de madeira ou a carroça como meios de vida me parece ser um engano, e desprezá-las como artefatos históricos, também.


Na narrativa, a hospedaria de madeira abriga monstros, como uma ancestral que se expande a ponto de preencher todos os cômodos, como uma larva que a pressiona a encontrar refúgio nas próprias memórias da casa, que metaforiza sua história familiar (é, afinal, uma busca por história e origens). A chave existencial do livro, além da busca por uma identidade, é a condição de sermos homúnculos dentro de nós mesmos. Não é coincidência que o início do livro é uma memória na antiga casa, onde um homenzinho vive num buraco no soalho e tenta a menina a trocar de lugar com ele em troca de um tesouro que ele guarda. Essa situação assustadora foi inspirada de forma textual nos relatos da família sobre uma prima que, dizia, conversava com um homenzinho, também.


Um Paraná profundo

O tema do Paraná (ou a ausência dele) está em muito do que escrevo. Minha cidade natal, Maringá, surgiu no fim dos anos 40, a partir de uma ferrovia para transporte de café. Além de ser atravessada pelo Trópico de Capricórnio, outra peculiaridade é que Maringá é um possível repouso para quem segue do Paraguai ao restante do Brasil. E, finalmente, o Trópico talvez simbolize, também, a zona limítrofe entre o Paraná urbano e rural. É simbólico e descrito no livro a nuvem avermelhada que se forma na chegada de qualquer cidade na região. É saindo da nuvem de poeira quente que as fronteiras com o Outro do campo, do passado, e do restante do mundo, que é futuro, são cruzadas.


História

A recepção histórica de migrantes de fazendas, vendedores, comerciantes ou trabalhadores temporários fez da cidade uma reunião de forasteiros. Nas narrativas que escrevo aparecem as bordas da cidade, os hotéis baratos, as lojas de operários, os comerciantes japoneses. Há muito pouco escrito sobre a profundidade dessas regiões. A história, arquitetura e atmosfera da cidade só recentemente começa a ser preservada por iniciativas, autarquias e obras diversas. Entre elas, destaca-se o Museu da Bacia do Paraná e o Museu UniCesumar. Sou feliz em fazê-lo na forma narrativa, como em Capricórnia e outros escritos.


Edição

O livro foi editado pelo Eduardo Lacerda, da Editora Patuá, em São Paulo, em 2015. A orelha foi feita pela amiga, dramaturga e agora escritora, Helena Machado. Helena classificou como o “caleidoscópio psíquico de um thriller alucinatório”, o que adorei. O exemplar está esgotado e discuto com o editor para fazermos uma versão em eBook.