Três mulheres num café

Updated: May 2

É um café de arquitetura antiga e atmosfera contemporânea. Não há WiFi; espera-se que não fiquemos por muito tempo, porque o lugar é popular. Vou até a área de mesas; é tudo levemente apertado, mas confortável. É o melhor café da cidade, onde os baristas treinam outros baristas. Procurei a mesa da janela, mas estava ocupada. Eram três editoras conversando. Falavam em inglês. Fazia muito tempo que não ouvia ninguém falando. A falta da língua-mãe cria uma espécie de campo de força. Cria uma solitude conveniente, como quem chega de outro planeta e, de forma obrigatória, observa.

Uma delas era sueca, e porque sentava-se sozinha, em frente às outras duas (as duas estavam lado a lado), supus que era maior na hierarquia da editora em que trabalhavam. Falaram de novelistas. Elogiaram alguns trabalhos, e o teor dos comentário parecia ser exclusivamente comercial. A editora era mencionada como um maquinário velho que, finalmente, voltava a funcionar.


O silêncio fazia-se notar. Eram conversas espaçadas por longos hiatos. A mulher mais velha parecia incomodada. Estava em desvantagem, porque as outras duas sabiam dominar o desconforto do silêncio. Não se via nelas qualquer necessidade de manter a calefação da conversa. De certa forma, faltava o senso tradicional de hospitalidade, ainda que a displicência não fosse inteiramente proposital.


“Ela sempre se refere ao namorado como pessoa", a mulher observou.


Era um comentário meio enviesado. Ela continuou.


"Sempre que ouço uma pessoa se referir ao seu cônjuge como 'uma pessoa' tenho a impressão de que é alguém do mesmo sexo”, ela disse.


Elas assentiram com certo entusiasmo, reconhecendo o mesmo, talvez tentando finalmente construir uma ponte que não fosse forçosa, já que a mulher não escondia mais a postura levemente aborrecida por precisar estar na cidade, por ter que esperar o avião, e porque as hospedeiras não jogavam conversa fora. Ela carregava uma pequena mala de viagem, voltando para sua capital no entardecer. A viagem de Helsinque a Estocolmo era muito fácil. Trem, aeroporto, trem. Em duas horas, de porta a porta.


As duas mulheres não perceberam que a terceira acabara de cometer uma contravenção. Como se não tivessem uma função primeiramente defensiva de esperar dos outros algo intoxicante como uma frase preconceituosa.


À editora não havia sido possível perceber a negociação que alguém faz ao se negar a explicitar o sexo daquele com quem vive. Menos ainda, a vantagem que se obtém caso todos fizessem o mesmo: viveríamos na completa ambiguidade sobre o sexo daquele com quem se vive. O direito à privacidade estaria protegido de ser violado por uma casualidade do discurso. Revelar essa orientação seria absolutamente intencional, sempre. Estaríamos habituados a viver em suspense, e livres de preconceitos, ainda que momentaneamente. A editora ficava aborrecida com essas coisas. Entediada, ventilou seu incômodo. A pedra na roda de sua maleta de mão era o rosto envergonhado de tanta gente.